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Coisa que me irrita e me faz abandonar uma conversa é ver o sujeito tratando futebol como sub-produto de um povo. Alguém que teve toda oportunidade nessa vida e estudou, se formou, se especializou, se tornou culto… e depois passa na rua balançando a cabeça negativamente quando vê alguém gritando gol do seu time com paixão, ou presencia amigos discutindo acaloradamente no bar por conta de um erro de arbitragem que decidiu uma final.
É a hora em que o sujeito se sente superior aos seus semelhantes: “se esses caras cuidassem das próprias vidas como sempre cuidei da minha… depois reclamam da miséria, mas se debatem por pão e circo…”
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Pobre é aquele que nomeia a pobreza.
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Alguém mais viu as cenas do título da Eurocopa sendo comemorado no País Basco? Quem não viu, que pena… Porque eu não consigo reconhecer outra situação onde os bascos aplaudiriam um triunfo conquistado sob a bandeira da Espanha… Não tem muita relação, mas me ocorreu Pelé, interrompendo uma guerra civil no Congo, em 1969, porque os caras queriam mais era ver o negão jogar: matar o inimigo, depois.
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Eu pergunto aos sábios: que outra manifestação popular tem esse poder? Esse magnetismo da bola, que transforma o estado de espírito de um povo como se fosse mágica?
Quem não se lembra de Maradona resgatando o orgulho do povo argentino – que havia perdido uma geração de bravos em uma guerra insana contra os bretões – quando mandou os ingleses para casa com “la mano de Dios“? A ESPN, vira e mexe, resgata esse documentário: no vestiário argentino, após o jogo, era um bando de bêbados sorvendo champagne e cantando, puxados por Dieguito: “La puta madre que los pario, la puta madre que los pario!…”. Um recado claro para os filhos da rainha: a Argentina renascera naquele dia como nação.
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Como renasceu o Brasil em 1958, naquela equipe fantástica e seu título inédito. Morria ali, no jogo contra a Suécia, o vira-latas de Nélson Rodrigues; nascia um povo orgulhoso de seu talento, que passou a ser reconhecido no mundo inteiro como o dono da bola. A identidade que o futebol nos deu, quer queiram ou não os cultos, não tem parâmetros na nossa história: só ali nos formamos como nação, em definitivo. Aos olhos do mundo, e até hoje é assim.
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Especificamente nesse país, tratar o futebol como sub-produto cultural deveria estar previsto como crime de lesa-pátria. Porque pobre é aquele que desdenha sua própria história e formação.
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Por tudo isso (e por uns motivos menores, confesso) , tratei de torcer muito para o Fluminense ontem… Não é justo que sua torcida não ostente um determinado título que os outros cariocas lhe jogam na cara. O Fluminense não é menor que os outros, por mais que o ranço do preconceito racial e social tenha maculado sua história, lá atrás. Ontem, no Maraca, havia um povo ali. E eu torci por ele… Que pena que não deu.
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Também gosto do Renato Gaúcho.
Catedral, é isso aí mesmo! Futebol é tudo isso e muito mais…
Barneschi: não quis dizer aqui, mas vc matou: o que vale para o Flu vale para o rivale, muito mais até. Quanto aos pênaltis… bom, eu tb tava no Palestra naquele dia contra o Boca. Nos pênaltis, disse para mim mesmo que não aguentaria ver e desci as escadas do fosso para apenas ouvir o que acontecia através do barulho da torcida. Lembro tb que vários caras, da Mancha inclusive, tiveram a mesma idéia e quando desci encontrei muitos, agoniados, com o rosto colado no muro do jardim suspenso e Zé Silvério no ouvido. Uma noite triste, aquela…
Filipe, teu elogio vale demais, obrigado mesmo! Mas te confesso que um dos motivos que me fizeram torcer para o Flu, foi seu técnico. Diferente de vc (que deve ter seus motivos), simpatizo com o figura.
Abraços!
Nada melhor que um dia após o outro, diria meu Vô Corinthiano.
Lindo post. Verdades incontestáveis são ditas aqui.
Parabéns.
Pena que não deu…
Mas o técnico do frufru merece, não é não?
Caríssimo,
Confesso ter começado a noite de ontem torcendo contra o Fluminense. Com moderação, mas contra. Sai da faculdade às 22h e, ao passar por um boteco da Paulista, fiquei feliz por ver o 0 a 1 no placar. O Flu empatou e virou enquanto eu seguia para casa. A princípio, não gostei. Ao chegar em casa e ver a multidão toda, naquele templo sagrado que é o Maracanã, o sentimento mudou um pouco. Fiquei dividido, algo que não é rotineiro. Por um lado, torcia pela LDU por julgar, como ainda julgo, que o Fluminense não poderia ser campeão sem um histórico maior na competição. Por outro lado, havia toda aquela multidão, todo aquele povo a ansiar por um sonho que talvez escape à compreensão deles. Digo que fiquei mais inclinado a torcer pelo gol da LDU, mas com medo de me arrepender depois. E aí vieram os pênaltis. Lembrei de todo o nosso sofrimento, e da incapacidade que eu tive na época (nos dois anos contra o Boca) de controlar a emoção nas arquibancas do Jd. Leonor e do Palestra. E me lembrei do quanto doeu. Fiquei impassível durante as cobranças todas. E senti a dor de cada torcedor do Fluminense. Por mais que pendesse mais pro outro lado, não seria digno comemorar. E entendo tudo o que você diz, mas não creio que o Fluminense tenha maior merecimento do que o nosso maior rival, por exemplo. E se o Fluminense tivesse um título de Libertadores, o Palmeiras deveria ter ao menos três, talvez com os dois que nos foram tomados pela arbitragem.
Abraços
Raphaello:
“Panis et circensis” é uma conjectura extremamente relativa. Isso não espelha a intelectualidade de um povo. Ao contrário, continuo achando futebol, ramo de cultura. Aliás, em tempo, é bom desfazer alguns juízos de valor apressados, que costumeiramente ouvimos sair da boca de “pseudos intelectuais”.
Inteligência todos temos. Exercitamo-la em nosso cotidiano.
Conhecimento aparece, quando fazemos bom uso da inteligência.
Sabedoria, pela ordem, nada mais é do que o bom uso do conhecimento.
Portanto, as coisas não funcionam como “alguns” pseudo letrados raciocinam.
Futebol é memória … Filosofia (ética e moral) … História (causas, efeitos e muito mais)… Sociologia (painel econômico, político e social)… enfim …
“Construir para poder conquistar! Acreditar sempre!