13/10/2008 por Seo Cruz
Vinte e um anos e cheio de novas idéias, “Ele” esperava muito do “Curso de Letras”. Porém, tal curso tirou-lhe a juventude e aquilo que o homem tem de mais puro: “A esperança” – recuperadas (em parte) com o “Curso de História”, tempos depois.
“Ele” almejava salvar a terra dos malefícios do Universo. Contudo, a idéia altruísta não passava de um reflexo contido na imaturidade que fizera-lhe evoluir como pessoa, por meio da dor.
Natural de uma família que tinha o que contar, “Ele” não poderia sair diferente. Italiano e palestrino, seu avô participara de forma destemida do episódio alviverde de “Setembro de 42″; enquanto o tio, militante político, era um leitor assíduo das introspectivas linhas de “Hesse”
O que mais dizer a seu respeito? Foi questiúncula de tempo envolver-se visceralmente com líderes estudantis. Nascia o homem político e pensador; desprovido do meio termo e dos acordos firmados ao redor de mesas.
Revolucionar simbolizava romper com o pré-estabelecido, inovar; transformar-se, sim, “à luz do conhecimento” – alguma coincidência com algum endereço eletrônico da mídia palmeirense?.
As coisas mudavam paulatinamente, levando nossos heróis ao extermínio. Chapman assassinara Lennon, anunciando o fantasma apocalíptico dos anos seguintes. E “Ele”, protótipo dos próprios sonhos, seria uma vítima de sua sociedade.
A censura estava caindo, mas não estava morta. A “ditadura militar”, iniciada na primeira metade da década de “60″, persistia – moribunda, mas persistente. Falava-se de “abertura”, mas Belchior retrucava com “Comentários a respeito de John”. Afinal, a democracia não partia das ruas, saía dos quartéis, onde os generais revezavam-se na presidência, incentivados pela mesma aristocracia que gostava de sentar-se em bancos de suplentes – lembram-se?.
E o menino metido a contestador conheceu sua noite de S. Bartolomeu. Ao final de um dia de trabalho, seguido pelas aulas da “faculdade” e antes de deitar a “carcaça”, foi abordado por homens trajados decentemente. Não foi oferecida alternativa . “Ele” e mais três colegas acabaram grampeados pela patrulha ideológica. A mesma que adquiriu terras de determinados “jardins” da vida.
Duas semanas de “terapia”. Choques na cabeça do pênis, palmatórias … Cabeças enfiadas em barris de água, ameaças de morte … Todos confessaram até o que não fizeram, negando, inclusive, seus próprios nomes.
Senhores, não existe heroísmo quando se vive a dor constante. Acabamos coniventes com a demanda alheia, aceitando o extermínio da memória e seus valores.
No decorrer do “flagelo” ouvia-se o som de um rádio, tocando músicas de um gosto duvidoso, além de jogos de futebol de um certo clube da zona sul – pura coincidência?
“Ele” perdera contato com os outros colegas . A maior parte do tempo mantiveram-no só. Pensava na mãe e no pai (este, tempos antes alertou-lhe, mas … ).
Um dia (mais parecido com a própria eternidade), “Ele” acabou sendo solto; manhã de sábado – veio a saber mais tarde. Deixado em estrada deserta, no município de Perus; corpo dolorido e roupa suja; assemelhava-se a um mendigo.
Depois de certo tempo convivendo com o “inferno”, voltara a sorrir; chegara em casa. Pensavam-no morto.
Somente dois anos após voltou a viver como uma pessoa comum. Sentia medo da própria sombra. Assustado, acordava todas as noites, com pesadelos intermináveis.
Justiça? Democracia? Liberdade? Qual o preço da paz? Perguntas intermináveis, respostas inexistentes.
Calaram-lhe a boca através do ardil coercitivo. Contudo, o mais importante é poder dizer que, não calaram-lhe a alma.
Obrigado você pelo texto e registro histórico que ficará aqui guardado, meu amigo!
Raphael,
Obrigado pela oportunidade de contar ao leitor do Cruz de Savóia, um pouco do que sei sobre a “ditadura militar”.
Ela por si, pouco instrui; nada acrescenta. Mas, os ecos dessa bomba sociológica são ouvidos até hoje.
O que me alegra é poder saber que, todos aqueles que lutaram contra “esse” sistema, permitiram no futuro (hoje), que palmeirenses como nós pudessem ter a “liberdade” de poder manifestar-se sobre quaisquer assuntos, através da “MÍdia Palestrina”.
Claro que algumas vezes, os subterrâneos da ditadura retornam (vide episódio Cruz de Savóia). Mas, é a oportunidade de provarmos o quanto nossa voz é corporativa.
“Construir para poder conquistar! Acreditar sempre!”