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Posts Tagged ‘Barões do Café’

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25/04/2008

Ela faliu em 1935.

Ela faliu em 1938. Então Palestra Itália e Corinthians entraram em campo no intuito de angariar uma esmola para seu presidente (conta-se que Porfírio da Paz transitava humildemente entre as duas torcidas da cidade, com sua bandeira esticada, pedindo e colhendo moedas).

Em 1942, a Grande Cafetina se aproveitou da declaração de guerra do Brasil contra o Eixo para confiscar bens e patrimônios das três maiores colônias que migraram para esse estado (alemães, italianos e japoneses), que prosperaram com o suor de seu trabalho, enquanto Ela mamava na pica da ditadura militar. Tentou ainda a todo custo tomar o Palestra Itália, mas essa história conhecemos bem.

Em 1944, Ela, que jamais possuíra patrimônio algum, conseguiu finalmente roubar um estádio, o da “Deustsch Sportive“, conhecido hoje como Canindé – e registrou em cartório, em nome de Cícero Pompeu de Toledo. Vendeu em estado de abandono, onze anos depois, para um conselheiro-laranja.

os rastros

os rastros

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Sede do Canindé e pista de atletismo, 1944 (Rev. São Paulo #14).

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Nada melhor do que um site bambi e concorridinho para nos contar sua própria história. O escrevente tenta achar alguma glória enquanto narra o episódio, mas não consegue. Clicando na foto, você pode ler a página com todo seu cinismo exposto; aqui destaco somente os pontos mais contundentes desse evento, nas palavras de um leonor que não pode se esquivar:

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De 1942 à 1955 o São Paulo Futebol Clube foi proprietário da área de 70 mil metros quadrados conhecida por Canindé (onde se ergue hoje o Estádio Dr. Oswaldo Teixeira Duarte, da Associação Portuguesa de Desportos).

Anteriormente o local pertencia a Associação Alemã de EsportesDeutsch Sportive, a qual vendera a propriedade ao Tricolor sob imposição de condições específicas (…)

Nota do Cruz – o autor, então, explica-se em outro texto, linkado na página:

Fatalmente a proposta financeira que concluiu essa transação estava abaixo dos valores de mercado, visto que pelo cenário político, impossível ser de outra forma – qualquer posse ligada ao Eixo assim estava desvalorizada, visto que o Governo Federal podia desapropriá-la a custo zero!

NC – Retomando a pérola:

Durante todo o período em que esteve sob égide são-paulina, o Canindé nunca recebeu um jogo oficial do clube (…)

Em 1952 o São Paulo partiu para seu maior empreendimento, a construção do Morumbi. Assim, em 1955 o clube vendeu a um conselheiro, Wadih Sadi, a sede do Canindé. Entretanto, lá permaneceu, sob autorização do novo dono, até 1956, quando a propriedade fora revendida para a Portuguesa de Desportos (…)

Enquanto tricolor, o Canindé não possuía arquibancadas (pois como dito, não recebia jogos). Coube à Portuguesa a construção das mesmas, posteriormente.

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Foto de janeiro de 1944 pertencente ao arquivo do São Paulo mostra o então presidente Décio Pedroso assinando a escritura da compra do terreno do Canindé. Ao seu lado Adulcinio dos Santos, Paulo Machado de Carvalho (de camisa clara), Cicero Pompeu de Toledo (primeiro da esquerda para a direita) e Porfirio da Paz (primeiro da direita para a esquerda)

Foto de janeiro de 1944 pertencente ao arquivo do São Paulo mostra o então presidente Décio Pedroso assinando a escritura da compra do terreno do Canindé. Ao seu lado Adulcinio dos Santos, Paulo Machado de Carvalho (de camisa clara), Cícero Pompeu de Toledo (primeiro da esquerda para a direita) e Porfírio da Paz (primeiro da direita para a esquerda)

texto e legenda: site do MN

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E foi assim que o Deutsche Sportive morreu, assistindo ao extermínio de todos seus esportes amadores sendo perpretado por uma gente oportunista, usurpadora e historicamente preguiçosa. O clube foi delapidado por um conselheiro e vendido à Portuguesa quando já estava abandonado. E sabem o mais interessante disso, sabem o porquê de eu ter escolhido este site para comprovar o que de fato ocorreu (além, é claro, da legitimidade que me foi dada por um autor são-paulino que se diz embasado na História)?

É porque, se você for procurar a trajetória do Deutsche Sportive no Wiki, descobre que o moço aí em cima é quem fornece as informações: ali, onde os jovens de hoje mais consultam referências (para diferentes fins), só há a versão do menino orlandinho… Daí, vendo a coisa distorcida contada por ele, começamos a entender essa massa de alienados que esquenta mais sofás a cada dia. Mas vamos em frente:

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Em 1950, a imobiliária de Adhemar de Barros conseguiu um empréstimo público vergonhoso (viabilizado pelo então Governador do Estado, deixem-me lembrar… Adhemar de Barros!) para comprar e terraplanar uma gleba na região do Morumbi. Essa gleba foi transformada em bairro e ganhou o nome de Jardim Leonor – uma homenagem singela que remete ao nome da esposa de… Adhemar de Barros.

Então é chegada a hora, meninos: conheçam a musa inspiradora da Boutique:

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Madame vela o corpo do marido em Paris, em 03/69.

fonte: IstoÉ

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Seu perfil, segundo o site oficial do falecido governador biônico:

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“Foi também uma grande promotora política nas campanhas eleitorais. Liderou a criação do Movimento Político Feminino, fundado em setembro de 1947. Criou o Departamento Feminino no Comitê da Vitória na campanha de 1954. Participava dos comícios, organizava festas e reuniões.”

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[adendo inserido em 28/12/2008]:
N.C.: Este texto “oficial” enfeita, na verdade, a real importância que a Leonor de Adhemar teve na consolidação do Golpe Militar que depôs Jango Goulart do poder, em 1964. Foi ela a fomentadora da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, como vemos (resumidamente) aqui:

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A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi o nome comum de uma série de manifestações públicas organizadas em resposta ao comício realizado no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964, durante o qual o presidente João Goulart anunciou seu programa de reformas de base. Congregou segmentos da classe média, temerosos do perigo comunista e favoráveis à deposição do presidente da República.

A primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São José, padroeiro da família. Articulada pelo deputado Cunha Bueno (…), com o apoio do governador Adhemar de Barros, que se fez representar no trabalho de convocação por sua mulher, Leonor Mendes de Barros, organizada pela União Cívica Feminina e pela Campanha da Mulher pela Democracia, patrocinadas pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES.

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Muito já foi dito no blogue a respeito desse tempo, dessa gente, desse estádio. Vejamos então uma nota da IstoÉ, que reporta à época da morte de Adhemar e aborda a repercussão do fato:

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Um dos articuladores civis do golpe militar de 1964, acabou cassado pelo presidente-general Humberto de Alencar Castello Branco. “No fundo, fizemos a revolução contra nós mesmos”, havia constatado amargamente meses antes da cassação. Casado desde 1927 com Leonor Mendes, nos últimos anos de vida Adhemar viveu uma intensa relação com a viúva Ana Benchimol Capriglioni, conhecida nos meios políticos pelo codinome de Dr. Rui. “Ela foi um caso do velho Adhemar, parte de seu último governo”, reconhece Barros Filho. “Quando ele e minha mãe se exilaram na França, ela também o acompanhou.” Em março de 1969, Adhemar morreu em Paris. A fama de sua fortuna era tamanha que, quatro meses depois, um grupo guerrilheiro promoveu um assalto cinematográfico a um cofre com US$ 2,5 milhões, que se encontrava em poder da família de Ana Capriglioni.”

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Apenas para situar melhor o leitor mais novo no contexto que descrevemos: a foto de Adhemar que encontrei à venda no Mercado Livre, datada dos áureos tempos de seu populismo, fala por si só: diria que dispensa comentários, mesmo…

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adhemar

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Em 1951, Ela colocou na tesouraria de seu clube o Sr. Laudo Natel, político muito ligado a um certo Adhemar de Barros. E, como toda sorte de pressão sobre o prejeito Jânio Quadros havia falhado (Madame queria a área do Parque Ibirapuera para construir um estádio), o velho Adhemar resolveu a questão como pôde: o Governo do Estado doou uma área de aproximadamente 90 mil metros quadrados em uma região inabitada conhecida como…. Jardim Leonor! Por esses lados, não havia povo e ninguém se deu conta, e Laudo aceitou de bom grado o presentinho do governador.

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Privadão inóspito, 1960

Privadão inóspito, 1960

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Vale ressaltar, ainda, que qualquer doação de terreno público requer uma contra-partida para toda a comunidade, responsabilidade da qual Madame não se furtou em 04/08/1952, quando assinou esta Escritura Pública de Doação, já amplamente divulgada pelo movimento Morumbi Cidadania. A associação de moradores quer quer o clube cumpra alguns deveres do qual vem se furtando há 56 anos:

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escritura

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Nem estacionamento, nem parque infantil. Mas é importante demonstrar que esse desprezo pela própria comunidade que abriga o clube não foi um fato pontual, nem casual, como nos mostra o JT de março desse ano:

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"Cagar na cabeça" daqueles que a ajudaram lá atrás é um traço recorrente no caráter de Madame.

"Cagar na cabeça" de quem a ajudou no passado é uma característica recorrente da índole de Madame

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História bonita, não? Edificante! Vamos pular então alguns anos, somente para que ela não fique enfadonha, com esse pobre cronista tendo que repetir sempre os mesmos nomes:

Em 1966, o Governador de São Paulo, Adhemar de Barros, é afastado do cargo por corrupção. Assume então seu vice, o Sr. Laudo Natel, à época presidente do SPFW. Claro que este senhor de sorte não se desfez do primeiro emprego: foi, assim, presidente de clube e Governador do Estado ao mesmo tempo, em plena ditadura militar. Com tamanho poder em mãos, ele achou por bem convocar os alunos da rede pública, que precisavam de verba para realizarem suas formaturas, para venderem o famigerado “carnê Paulistão”, cujo dinheiro foi desviado em boa parte para se viabilizar a construção do Panetone Cor-de-rosa.Nessa época, também quem precisasse de um empréstimo bancário não saía do Banco Brasileiro de Descontos (hoje Bradesco) sem ser achacado por algum gerente que o fazia adquirir várias cotas do “Carnê Paulistão”.

E, novamente, continuar seria inútil. Porque podemos ouvir e ver a verdade na voz e nos gestos de Gardenal:

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os rastros

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Depois de assisitr esse vídeo, vale a referência: aqui vai uma informação retirada da página da própria torcida alienada. Façam as contas da quantidade de dinheiro público desviado:

O volume de concreto utilizado é equivalente à construção de 83 prédios de dez andares. Os 280 mil sacos de cimento usados, colocados lado a lado, cobririam a distância de São Paulo ao Rio de Janeiro.”

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Já em 1970, para tentar tirar a Madame da seca, o Governador Biônico da Ditadura Militar e presidente do SPFW sentava-se no banco de reservas das moças durante jogos decisivos, para poder intimidar o pessoal da arbitragem (nota: qualquer semelhança com a atitude de qualquer coronel de hoje, ali na linha de fundo, deve ser mera coicidência); na final contra a Ponte Preta, quando seu time perdia, o ditador desceu de helicóptero no meio do gramado e foi direto ao vestiário dos árbitros. E foi assim que conseguiram se livrar de uma fila de 13 anos, desfazendo a vantagem da Macaca em uma das finais mais absurdamente roubadas do futebol paulista, dentro da Bambineira, sob o olhar atento do chefe de governo.

[Aqui, em 06/12, faço um adendo] para inserir o texto veiculado esse ano pelo Correio Popular de Campinas, e agradeço ao vigilante amigo Ademir pelo envio:

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Em 1971, essa pressão surtiu efeito novamente. Não é mesmo, Armandinho?

Os que já leram Souvenirs de Madame podem pular o trecho em destaque:

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Os rastros

Os rastros: 1970 (o crime é contra a Ponte)

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Carlos Lacerda e Laudo Natel, o governador biônico e presidente do SPFW que se sentava no banco durante os jogos do seu time para poder controlar os árbitros


Você pode ler a entrevista edificante (cujo trecho reproduzirei) aqui, por completo. Para nossos leitores e amigos, deixo apenas um pedaço bem simbólico, representativo do fermento de alienação que faz inchar a massa leonor; trata-se de uma entrevista de Laudo Natel para o SPNet.

SPNet – No livro do ex-presidente Bastos Neto, ele conta que o Presidente Médici estava receoso de entrar no gramado e ser vaiado devido ao momento turbulento na política brasileira, mas o Sr. o encorajou dizendo que havia “dedicado uma vida para a construção desse estádio e esperava naquele 25 de janeiro esse reconhecimento”. O que aconteceu após a entrada do Sr. e do Presidente Médici em campo?

Laudo – Era a primeira visita do Médici a São Paulo (1970). E convidei primeiro o Costa e Silva, mas ele ficou doente e não pôde vir, até depois veio a falecer. Eu fiquei em dúvida em convidar o Médici, pois já havia convidado o Costa e Silva. Mas o convite é estendido ao Presidente da República, por isso o convidei. O Médici gostava de futebol, aliás ele era são-paulino aqui, acabou vindo. Mas, no dia da inauguração, com o campo lotado, a segurança do Presidente achou que ele não deveria entrar, talvez com receio de ser vaiado. Eu disse a ele: “Presidente, o senhor vai entrar comigo, pois se existe alguém que não pode ser vaiado hoje, esse alguém sou eu. Então, o senhor entra comigo”. Aí, ele aceitou e entrou. Na hora que ele entrou, foi uma ovação do público, deixando-o arrepiado. Tanto é que ele, que já gostava de vir a São Paulo, ficou freguês de vir pra cá. No período em que eu fui governador, ele veio umas vinte e tantas vezes. Mas, a entrada dele foi na inauguração do Morumbi.”

Torcida invejável, né?… Veja uma foto do dia da inauguração do Privadão, em meio à festa repleta dessa gente singela:

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primeirojogo

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Recordando: Laudo foi o presidente do SPFW nos anos mais negros da ditadura, indicado pelo então governador Adhemar de Barros. Era o laranja de confiança para o governador, que planejava desviar dinheiro público e fazer concessões ilegais de terreno para que seu clube (com histórico recorrente de falências e nenhum patrimônio) conseguisse ter um estádio. E o fez, logicamente, por intermédio de sua imobiliária.

E, também logicamente, o governador acabou sendo afastado por corrupção, em 1969.

Mas nessa época Adhemar já tinha feito Laudo Natel seu vice. Então o presidente do SPFW e diretor do Bradesco (instituição que mais enterrou dinheiro escuso na Bambineira) tornou-se também governador biônico de São Paulo – em um contexto onde seu time passava por uma seca de títulos, pois, enquanto erguia o anti-estádio, o clube não ergueu nenhuma taça.

Ao todo se juntaram 13 anos de fila e o time leonor chegava à decisão de um Paulista contra a Ponte Preta. E no seu estádio, recém-inaugurado pelo governador biônico, que já havia adotado o hábito de sentar-se no banco de reservas tricolor para intimidar a arbitragem.

Bons tempos da ditadura militar, auge da glória leonor, onde não era preciso sequer colocar um coronel na linha de fundo para intimidar uma bandeirinha.

Era preciso tirar o time mais querido dos barões da fila. Era preciso mostrar isso para a arbitragem, ostentando poder e aparato militar para que a coisa ficasse clara… então, naquela decisão em 70, Laudo Natel foi além e decidiu fazer uma entrada especial: com o estádio lotado, pousou de helicóptero no meio do gramado, cercado de seguranças, e foi direto para o vestiário de arbitragem “cumprimentar” o caga-regras escalado para o jogo, ninguém menos que Arnaldo César Coelho. Sim, o mesmo Arnaldo global que quer nos ensinar que “a regra é clara“.

Não há porque prolongar o texto nessa postagem. Veja o leitor e amigo e julgue por si só o pênalti anotado por Arnaldo contra a pobre Ponte Preta naquela partida, sob o olhar atento do chefe de governo.

Mais um capítulo essencial na história de Madame:

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Em 1981, quando Madame tomava o segundo chocolate do Botafogo pelas semi-finais do Brasileiro, em plena Gaiola das Loucas, a diretoria esperou o intervalo do jogo para mandar ao vestiário do árbitro Bráulio Zannoto três seguranças armados: Brandão, Maurinho e Chitão – que, curiosamente, eram seguranças da Macaca (e foram contratados só para esse serviço). Conta o árbitro que nada fez, além de ajudar Madame a virar o jogo, porque teve medo das consequências…

Para contar melhor esse episódio, novamente recorreremos ao nosso arquivo do “Souvenirs…”:

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1981 - A vitima é o Botafogo

Os rastros: 1981 - A vítima é o Botafogo

Semifinal do campeonato brasileiro de 1981, SPFW x Botafogo. No primeiro embate no Maracanã, o Bota saiu vencedor por 1 x 0: restava vir para São Paulo e segurar o empate, pois a vantagem era do time paulista em caso de uma vitória para cada lado. Mas Gérson, do Bota, abriria o placar em São Paulo, ainda no começo de jogo, espalhando um balde de água fria no entusiasmo leonor; e em um contra-ataque alvinegro, aos 19 minutos, Mendonça faria 2 x 0, após belíssimo lançamento de Perivaldo. Fatura encerrada?

Se fosse um time de futebol do outro lado, provavelmente sim. Mas se Madame precisa de 3 gols, vai conseguir 3 gols, não importa por quais vias: aos 45 minutos do 1º, após cruzamento na área, Chulapa esbarra nas costas de Gaúcho Coalhada e se atira no chão. Pênalti.

Talvez, não fosse Serginho o protagonista da cena, e o lance poderia até gerar dúvidas, pois Coalhada abriu os braços; mas ali não dava. Quem viu o Chulapa jogar (e lembra do seu “tamanhinho“) sabe que jamais ele seria deslocado daquela maneira, ao contrário, se pudesse fazer o gol, deslocaria quantos marcadores estivessem a sua volta… Mas é pênalti, Chulapa cobra e é gol. O goleiro tenta pegar a bola para retardar o reiníco do jogo; aí Serginho, o frágil, atira o goleiro Paulo Sérgio no chão somente com uma bundada. Reclamação da defesa do Bota, mas o juizão ignora o choro carioca e termina o primeiro tempo.

A senha estava dada: o juíz era covarde, caseiro no mínimo – e então Madame parte para o segundo ato, escrevendo um dos capítulos mais vergonhosos da história do calcio nacional: Assim que Bráulio Zanotto entra no vestiário dos árbitros, percebe a presença de 3 seguranças armados (Brandão, Maurinho e Chitão), todos contratados da Ponte Preta para fazer aquele trabalho esporádico e sujo. Um bandeirinha consegue fugir do vestiário, o outro não.

Alegando que Bráulio estaria “prejudicando” o SPFW, os três desferiram murros em Zannoto, intercalados com chutes no seu tornozelo; um bandeira também apanhou bastante, mas nenhum dos dois teve coragem de parar o jogo ali: voltaram a campo e Ela fez o que quis no segundo tempo, até chegar ao terceiro gol.

Com Zannoto mancando visivelmente.

E, quando fizeram o 3º gol, no placar eletrônico da Bambineira começou a aparecer os horários da ponte aérea para o Rio, mandando o Botafogo para casa. Entre os horários dos vôos, o placar “mandava seu recado”: “Fogão, Fogo, Foguinho, Fumaça, Cinza“.

1981, tempo da ditadura, ainda. Madame já tinha a caneta, escrevia o que queria e ninguém reclamava. Áureos tempos leonores, onde não era preciso sequer manipular procuradores fora de campo.

Anos mais tarde, Bráulio Zannoto contaria em detalhes o ocorrido, dizendo-se arrependido por não ter sequer relatado o que aconteceu na súmula do jogo, pois havia sido ameaçado. O vídeo que você vai ver abaixo é um especial feito pela SporTV com Éverton, herói das meninas naquele embate. Repare em alguns detalhes no vídeo:

1) Veja o desconforto de Éverton ao ser questionado se algum fator no vestiário deu ânimo ao SPFW para virar o jogo; o repórter pergunta claramente a respeito do pré-jogo (já que o Bota ganhara a primeira), e ele responde que, com união, “revertemos uma situação praticamente impossível“. Ou seja, ele responde pensando que o repórter o argüia a respeito dos fatos ocorridos no intervalo.

2) Repare como ele comenta, sem graça, o gol de pênalti anotado por Bráulio. Ele diz “mesmo que foi de pênalti, né?” como quem diz “mesmo com um pênalti daquele…”; note também quanto tempo o narrador e o repórter demoram para acreditar que o juizão realmente havia marcado aquilo.

3) Após o 3º gol, na comemoração, veja que pelo menos dois diretores/conselheiros/seguranças ou sei lá o quê, simplesmente invadem o gramado e se atiram no chão com Éverton para comemorar o feito, na cara do bandeira, que fica atônito e não adverte ninguém (um deles está de calça social marrom e camisa clara, de mangas compridas).

E, finalmente, veja se você daria pênalti naquele lance.

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Poderia continuar até amanhã, destrinchando ano a ano a calhordice dessa gente; Falta o episódio da contraprova de Mário Sérgio, em 1984; tem o Aragão operando o Guarani em 1986; tem o rebaixamento de 1990 que a FPF conseguiu transformar em título paulista em 1991; tem Madame com crise de TPM em 1994, esburacando seu próprio gramado para impedir Palmeiras x Corinthians de realizarem o jogo do título em sua casa…

Mas creio que vocês que me lêem, em sua maioria, têm idade suficiente para não se lembrarem de uma glória ou um título os quais Madame ostenta, que tenha sido ganho na bola, sem a influência sombria da mão que a gente não vê.

De todo modo, deixo abaixo algumas referências importantes sobre caráter Dela, que é preciso consultar para entender porque os “Parmeristas” históricos sempre fizeram questão de nos revelar quem é o verdadeiro inimigo; e inimigo é para ser destruído, não perdoado.

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A verdadeira história do time do Morumbi“, por Marcelo Nacle

Os verdadeiros bandidos“, por Barneschi

Como se fabrica um campeão“, pelo blog Parmerista

A campanha suja de Madame“, por este Cruz

Morumbi, Não!“, pelo blog homônimo

Pra não dizer que não falei dos erros“, por Secondo Tucci

Souvenirs de Madame, por este Cruz

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Este post foi patrocinado pela S4M5UN6

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.…. .…. Prefácio e créditos…. .…..
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1916: DUAS TAÇAS NO ANO EM CAMPOS OFICIAIS
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Esquerda para a direita: Gobato, Valle II, Vescovini, Bernardini e Severino; De Biase, Bianco E Fabbi; Grimaldi, Fabrini e Rico.

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1916 marca a história do Palestra Itália como sendo o primeiro ano em que o clube pôde disputar um campeonato oficial, o Paulista daquele ano. A afiliação à APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) se deu de maneira conturbada, e em cima da hora, sendo esse um episódio a parte para ser contado em outro momento. O fato é que a esquadra oriundi ainda engatinhava em termos de experiência e estrutura – e isso contava muito em um tempo onde o esporte era totalmente amador no Brasil; e embora não tenhamos realizado um grande campeonato aquele ano (chegamos na frente apenas da AA das Palmeiras na classificação geral), o clube não se deu por vencido e continuou buscando a “malícia” que faltava àquela bela equipe. Foi assim que conquistamos dois torneios amistosos nesse ano.

O primeiro foi a Taça Cidade de Taubaté, cuja foto do time que atuou naquele jogo você vê acima. Realizada no campo do Taubaté no dia 31 de Julho, a peleja foi vencida pelo Palestra por um tento apenas, com um gol marcado por Vescovini.

Com um time um pouco diferente (Migliari, Grimaldi e D’Andrea, Fabbi, Bianco e Bertolini, Gobatto, Ottani, Vescovini, Bernardini e Severino), o Palestra Itália já havia arrebatado, uma semana antes, o Troféu Ludovico Bacchianni, no campo da Floresta, em 23 de Julho. Com gols de Gobato (2), Bianco (2) e Vescovini (1), batemos pelo placar de 5 x 2 a equipe campineira Black Team. Infelizmente, não houve como encontrar documentos fotográficos dessa escalação ou da taça em questão. Mas o que ficou registrado foi a latente vocação Palestrina para colecionar títulos.

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Cartão postão enviado pelo exército italiano (destaque em azul) para um imigrante no Rio de Janeiro.
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(+) É inaugurado, em 22/10 desse ano, o estádio santista Urbano Caldeira, a Vila Belmiro.

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1917: O PALESTRA COMEÇA A SER UMA POTÊNCIA
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A esquadra de 17: Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.
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O orgulho italiano não deixou que nossos fundadores digerissem facilmente a fraca campanha do Paulista de 1916. E, não obstante as dificuldades financeiras que afligia o clube em plena Guerra Mundial e ao amadorismo que regia o futebol, decidiram os italianos investir forte para ver o time dos filhos da Itália no lugar que julgavam ser o seu: o topo. E assim trouxeram para o clube craques da pelota que atuavam em outros campos da época; e o Palestra apresentou Heitor, Ministro, Bertolini e Martinelli para reforçar a esquadra – que também ganharia ao longo do ano novo distintivo, como você vê acima.O investimento não demorou a dar resultado: fomos vice-campeões paulistas com apenas três anos de existência. Das 16 partidas disputadas, 10 foram ganhas, para a surpresa dos brasileiros que começavam a se apaixonar cada dia mais por aquele time de imigrantes.Essa campanha, combinada com outros troféus de menor importância que o Palestra foi acumulando durante 1917, trouxe ao clube a confiança necessária para crescer e se aproximar da excelência que afloraria nos próximos anos. Veja abaixo as outras glórias conquistadas no decorrer de 1917;

1) Taça Comendador Gaetano Pepe: em 18 de março, contra o forte Paulistano (justamente o campeão Paulista daquele ano), cravamos um 3 x 2 no placar, no campo da Floresta, com gols de Martinelli e Caetano na etapa inicial e mais um tento assinalado por Orlando, no 2º tempo. Nossa escalação naquela tarde foi a mesma que você vê foto acima; mas não nos custa repetir, para que fique gravado na nossa memória Palestrina: Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.

2) Taça Talá: na tarde de 25 de março, no campo santista situado à rua Conselheiro Nébias, o Palestra conquistaria seu 2º trunfo no espaço de uma semana. O adversário, desta feita, foi o Brasil de Santos, que viu o Palmeiras levar o troféu com gols de Heitor e Martinelli, um em cada tempo, em um jogo que terminaria em 2 x 1. E vamos novamente relembrar nossos heróis que enfrentaram mais essa batalha: Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.

3) Taça Casa Gaetano Castellano: Agora já estamos em 15 de abril, no cidade de Rio Claro, onde o time venceria o time homônimo em seu estádio por 2 x 0. Infelizmente não há registros dos artilheiros dessa partida, mas quanto a escalação… bem, lá vai: Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.

4) Taça Sudan: Essa o Palestra Itália levou para casa mesmo com o jogo tendo terminado em 1 x 1. E foi Heitor, novamente, o autor do gol assinalado contra o Comercial de Ribeirão Preto, no estádio da Floesta, em 30 de maio. Nunca é demais repetir a escalação da esquadra que trouxe grandeza ao clube que tanto amamos. Novamente jogamos com Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.

5) Taça Henrique Catalano: Guaratinguetá já tinha um time àquela época, a Esportiva. E foi no estádio muncipal daquela cidade, em 12 de agosto, que o Palestra Itália aplicou no time da casa uma goleada de 4 x 1, levando na viagem de volta mais um título honorário. A escalação teve uma pequena mudança nesse jogo: no lugar de Orlando, entraria Severino. E infelizmente não há registros dos gols marcados naquela tarde.

6) Taça Amíris: Heitor, Martinelli, Ministro e Picagli foram os artilheiros dessa disputa contra a Associação Atlética das Palmeiras, no campo da Floresta, em 1º de novembro de 1917. Eis a escalação do Palestra, novamente com Severino em campo: Flosi, Grimaldi e Bianco; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Severino e Martinelli.

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Outro marco da história Palestrina foi pregado no ano de 1917: pela primeira vez na história – e no gramado do Parque Antarctica – Palestra Itália e Corinthians se enfrentariam. O primeiro de um dos maiores clássicos do planeta não poderia ter sido mais perfeito para a nação ítalo-brasileira: um sonoro 3 x 0, com os três gols marcados por Caetano, o ponta que o Palestra trouxera do time varzeano Ruggerone, do bairro da Lapa. Esse jogo imortal aconteceu em 6 de maio, pelo Paulista daquele ano.
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(+) Ocorre a primeira greve oprrária no Brasil, iniciada por trabalhadores de duas fábricas têxteis de São Paulo. Logo o movimento paralisou São Paulo, pois contou com a adesão em massa dos trabalhadores do serviço público. A manifestação contou com a desão de aproximadamente 50.00 pessoas e o movimento foi tratado como caso de polícia.

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1919: Dois sonhos bem perto da realidade

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Time base de 19: Primo, Oscar e Bianco; Valle, Picagli e Bertolini; Martinelli, Frederichi, Heitor, Ministro e Forte.

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Foi esse um belo ano para o Palestra Itália. Fora dos gramados, começava a campanha junto à colônia italiana para arrecadar fundos visando a compra do terreno da Companhia Antarctica. Dentro de campo (e de volta ao Paulista), fizemos um primeiro turno irrepreensível: em 10 jogos, foram 9 vitórias e apenas 1 empate, um aproveitamento espetacular de 95% dos pontos disputados. Tudo caminhava para a conquista do primeiro título oficial do Palestra Itália mas, no segundo turno, dois tropeços seguidos dentro de casa selariam o destino da jovem equipe – que já sentia a pressão por uma conquista de porte: os placares de 0 x 1 contra o Corinthians e 1 x 2 contra o Paulistano adiaram por mais um ano o sonho Palestrino, e a esquadra seria novamente vice-campeã, enquanto o Paulistano, outra vez, erguia a taça.

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Exclusividade do site Palestrinos: é a reprodução de um bônus original adquirido pelo Sr. José Del Grande. A cota, como já dito, era vendida no intuito de se levantar recursos para a compra da Nostra Casa. Acima e abaixo da bandeira do Palestra, lê-se os seguintes dizeres:
Quero deixar aqui com meus inalteráveis sentimentos de admiração e amor pela Itália, os votos ardentes para que essa benemérita associação suba sempre mais
São Paulo, 24 se setembro de 1919 L.M. de Souza Dantas
Em benefício do fundo Pro-Stadium
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Esse documento já seria raro por si só, mas se torna ainda mais valioso pela data nele estampada, 24 de setembro, justamente o dia de lançamento da campanha da venda de bônus. Como se vê, portanto, todo e qualquer Palmeirense vivo pode se orgulhar de ter um estádio e um clube de primeira linha comprado e construído com recursos vindos do suor do trabalho de seus antepassados. Dinheiro privado, honesto e doado muitas vezes a duras penas. Não é qualquer torcedor de outros times que pode bater no peito e se vangloriar desse feito. O Parque Antarctica, que seria comprado já em 1920, foi o fruto da história imigrante de todo um povo. O nosso povo.
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Mas o ano não termina com o vice-campeonato estadual. Outras seis taças comemorativas foram conquistadas pelo Palestra Itália naquele ano tão marcante. Vamos conferir:

1) Taça Tenente Golo: No estádio da Rua César Ramalho levamos mais este troféu simbólico, ganhando por 3 x 1 do glorioso Cambucy, no dia 9 de março, com gols de Picagli, Ministro e Aldighieri. Eis nossa escalação naquela tarde: Primo, Bianco e Grimaldi; Attílio, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Aldighieri.

2) Taça Estádio Paulista: Agora contra o tradicional Ypiranga, o escore de 2 x 1 garantiu mais uma taça para o esquadrão Palestrino. Os gols foram de Ministro e Heitor (um em cada tempo), e nossa escalação foi um tanto diferente nesse 23 de março, no estádio da Floresta: Primo, Bianco e Grimaldi; Pedretti, Valle II e Fabbi; Forte II, Ministro, Heitor, Aldiguieri e Ferré.

3) Taça Beirute: Jogo tranquilo em 21 de abril contra a AA das Palmeiras, quando nem sequer precisamos do artilheiro Heitor em campo para aplicarmos a mais clássica das goleadas: 3 x 0, com gols de Aldiguieri, Martinelli e Mazzuchi. O fato curioso é que talvez tenha sido esse o único “título” conquistado pelo Palestra Itália, em toda sua história, dentro do Parque São Jorge (e contra um time chamado Palmeiras). Eis aqui os 11 heróis que passearam com elegância na casa do rivale: Flosi, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Mazzuchi, Aldighieri e Martinelli.

4) Taça Pinoni: essa guerra foi decidida em batalhas distintas, contra o Corinthians. O rival venceria a primeira peleja em 3 de maio, por 3 x 0; o Palestra devolveu a derrota 10 dias depois, em 13/05, assinalando no placar dois tentos contra um. A decisão, então, foi para campo neutro, o estádio da Ponte Grande, em jogo disputado apenas no mês de julho, mais precisamente no dia 20.

A expectativa foi grande e os prognósticos eram incertos. A única coisa indubitável naquele cenário era que ninguém queria perder – e o clássico placar de 1 x 0 conquistado pelo Palestra traduziu bem esse sentimento, mas não a emoção do jogo. Ministro foi o herói que castigou mortalmente as metas do rivale, e essa foi a escalação completa na finalíssima: entramos com Flosi, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picaglia e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Aldiguieri.

5) Taça Carmine Neri: Um passeio na Rua Conselheiro Nébias… o Americano de Santos não esueceria tão cedo aquele placar de 8 x 0 escrito pelos heróis Palestrinos em 3 de agosto. Picagli, Imparato (2), Caetano (2) e Heitor (3) foram os carrascos do time da baixada. O time completo foi esse: Flosi, Bianco e Grimaldi; Picagli, Bertolini e Fabbi; Imparato, Caetano, Ministro, Aldiguieri e Heitor.

6) Taça 20 de Setembro: Viajamos até Amparo para abraçar mais esse troféu, jogando contra o time homônimo. Heitor e Imparato garantiram tranquilamente essa conquista marcando 1 gol cada, e a peleja termiva assim em 2 x0, fechando o ano Palestrino com mais uma conquista. Eis a esquadra que atuou aquele dia: Primo, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picaglia e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Imparato II.

Mas era pouco, e os italianos queriam mais, muito mais.

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(+) Foi também em 1919 que Monteiro Lobato publica “Idéias de Géca Tatu”, contendo artigo entitulado “Paranóia ou mistificação?”, onde produz críticas ácidas ao movimento dos modernistas (e em especial contra Anita Malfati). Como pensador de sua época, Monteiro Lobato via o modernismo brasileiro apenas como uma tentativa de se reproduzir a arte produzida no Velho Continente e não dosou a ironia em seu texto, gerando um enorme sentimento de revolta na vanguarda artística brasileira.

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1918: OS IMIGRANTES JÁ INCOMODAM OS BARÕES
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O time base do Palestra em 1918: Primo; Bianco e Grimaldi, Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Martinelli.
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Começa o quinto ano de vida do Palestra Itália, e essa curta existência já era suficiente para irritar profundamente aqueles que sempre se acharam os donos da bola: gente que perseguiria o Palestra por toda vida, mesmo após quebrar várias vezes, se unir aqui e ali e mudar a nomenclatura de seu clube. Gente que continuou nos odiando pela nossa origem por toda vida, mesmo depois de ter obrigado o próprio Palestra Itália a mudar de nome, em uma inútil tentativa de apagar da memória do nosso torcedor sua própria história de vida.Em 1918, com uma grande esquadra nos gramados (que já havia sido vice no Paulista do ano anterior), o Palestra não pôde tentar bater o Paulistano (campeão de 17 e absoluto até então),nem vibrar com o tão sonhado título: as arbitragens daquele ano se mostraram tão tendenciosas contra o time oriundi, tão publicamente vergonhosas, que não restou ao Palestra outra atitude a tomar além de abandonar a competição, não sem que nossa diretoria deixasse registrada toda sua revolta.

A solução encontrada para que o Palestra continuasse em atividade aquele ano foi buscar a disputa de mais troféus honorários, contra times de Rio, Minas e São Paulo. E não fizemos feio, ganhamos 5 títulos desse naipe, alguns contra senhoras equipes, times de respeito. Veja como foi nossa saga, portanto, em 1918:

1) Taça Jornal do Comércio: Esse troféu foi conquistado após duas partidas de ida e volta contra o São Cristóvão (que, para quem não sabe, era um time fortíssimo na época). O primeiro jogo, realizado em 13/01 no estádio do Andaraí (RJ), terminou em um emocionante 4 x 3 para os cariocas. Os gols Palestrinos marcados por Bianco (1º tempo), Taurisano e Heitor (2ª etapa), não foram suficientes para conter o ímpeto do mortal ataque carioca. Nossa escalação desse jogo foi a seguinte: Flosi, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro e Arione; Taurisano e Heitor.

Mas o que era do São Cristóvão estava guardado para o jogo de volta, no campo da Floresta, disputado uma semana após a derrota no Rio, em 20/01. Em uma 1ª etapa arrasadora, Heitor, Ministro e Caetano trataram de reestabelecer o orgulho do Palestra Itália e liquidar a fatura. Heitor castigaria as redes adversárias mais uma vez na 2º tempo, fechando a fatura em 4 x 1 e conquistando a taça de modo incontestável para os ítalo-brasileiros. Desta feita, contamos com Imparato escalado no lugar de Arione, e atuamos com a seguinte formação: Flosi, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro e Imparato; Heitor e Taurisano.

2) Taça dos Cronistas Esportivos: Esse título, também conquistado em duas partidas, foi com certeza a batalha mais importante travada pelo Palestra durante esse ano. Isso porque o adversário era ninguém menos que o fortíssimo Corinthians – e a conquista não foi nada fácil. Um emocionante 3 x 3 (gols Palestrinos marcados novamente por Bianco na 1ª metade e Taurisano e Heitor no 2º tempo) no estádio da Ponte Grande, em 17 de março, adiaria por uma semana decisão do troféu. Construímos esse empate com Flosi, Bianco e Grimaldi; Bertolini, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Amoroso.

E foi no mesmo estádio da Ponte Grande, em 24/03, que batalha igualmente sangrenta foi travada; novamente num jogo de seis gols, mas dessa vez venceríamos por 4 x 2 o arqui-rival. E novamente estufamos as redes adversárias por três vezes ainda no 1º tempo, com 2 gols de Caetano (que adorava marcar contra os alvinegros) e um de Heitor. Na parte final da peleja Ministro ainda registraria mais um tento, enchendo de orgulho a nação de imigrantes que crescia a cada dia em sua paixão por seu time.

Assim como já havia acontecido na decisão contra o São Cristóvão, a escalação desse dia triunfal foi um pouco alterada em relação ao primeiro jogo: entramos com Flosi, Bianco e Grimaldi; Pedretti, Picagli e Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Imparato e Martinelli.

3) Taça Initium: Essa taça conquistamos em solo sagrado, em pleno Parque Antarctica, em 28 de julho, contra o Americano da cidade de São Roque. Em um emocionante jogo de cinco gols, guardaríamos mais essa menção honrosa em casa após gols marcados por Heitor, no 1º tempo e Caetano e Picagli, na parte final do espetáculo. Placar final de 3 x 2, com a seguinte escalação: Flosi, Bianco e Oscar; Bertolini, Picagli e Fabbi; Forte II, Caetano, Heitor, Imparato e Aldiguieri.

4) Taça Cruz Vermelha: Esse foi um massacre no Jardim Suspenso de Parque Antarctica. Um retumbante 5 x 2 em outro Americano, agora o de Santos, acrescentamos à coleção a quarta taça amistosa do ano. Os goleada de 25 de agosto teve os seguintes artilheiros: Aldiguieri (1) e Ministro (2), ainda nos primeiros 45 minutos; Imparato (1) e Heitor (2) na parte final do espetáculo. Eis a formação completa do Palestra, que faria apresentação impecável naquela bela tarde de inverno paulistano: Morlin, Flosi e Grimaldi; Picagli, Fabbi, Pedretti, Ministro, Heitor, Imparato, Aldiguieri e Caetano.

5) Taça Falchi: Os ítalo-brasileiros que compareceram ao Parque Antarctica em 25/08 e repetiu a dose uma semana depois, em 1º de setembro, devem ser geneticamente responsáveis por termos desenvolvido em nossa nação Alviverde fileiras de torcedores tão exigentes. Porque após o show contra o Americano de Santos, veio o balé contra o escrete do Minas Gerais. O time mineiro voltaria para Belo Horizonte levando na bagagem uma lembrança indelével de Heitor e sua trupe. E um placar adverso de 6 x 2, com direito a 3 gols de Heitor, 2 de Aldiguieri e 1 de Imparato.

E assim o Palestra Itália fecharia seu ano de vitórias, esperando que pudesse retornar ao Campeonato Paulista de 1919 para lutar em condições de igualdade (leia-se julgado com isonomia na aplicação das regras do calcio) contra os grandes de São Paulo.

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hino

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1918 também marca o ano da composição do nosso 1º hino. A melodia se perdeu no tempo, mas conta a história que foi interpretada pela 1ª vez no Teatro Avenida, em 25 de agosto, às vésperas do aniversário da fundação do Palestra, pela cantora portuguesa Elvira Martins, devidamente vestida com o manto sagrado do time do Jardim Suspenso.

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(+) Em 11 de novembro, os aliados assinam “armistício de Compiègne” em Rethondes, França, com a Alemanha. Era o fim da Primeira Grande Guerra!

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1932: TÍTULO INVICTO, COM 100% DE VITÓRIAS


Em pé: Tunga, Goliardo, Volponi, Afonso, Nascimento e Junqueira. Agachados: Avelino, Sandro, Romeu, Lara e Imparato.


Essa esquadra que você vê aí não fez pouco pelo Palestra: foram 11 partidas no Paulista de 32 (interrompido entre 3 de julho e 6 de novembro por conta da Revolução Constitucionalista), com 11 vitórias. Nosso pioneiríssimo clube, que ia adquirindo ao longo de sua história a “mania” de ser campeão invicto, alcançou em 1932 uma marca ainda mais significativa, totalizando 100% de aproveitamento.A maioria de nós nem era nascido nessa época, mas podem se lembrar de outra campanha de excelência desse mesmo Palestra, 64 anos depois, em outro Paulistão. Vejam alguns dos resultados conquistados pelos heróis de 32: 8 x 0 contra o time do Santos, 7 x 0 aplicados no Atlético Santista e 9×1 diante do Germânia (que teria seu estádio roubado 12 anos mais tarde por aquela gente sem rosto).

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Um ponto marcante na trajetória dos oriundi em São Paulo: o esforço feito por nosso povo para mostrar à sociedade paulistana tradicional seu apego pelo Brasil e por seu povo. Você vê acima crianças uniformizadas tal e qual as tropas paulistas, em plena Revolução Constitucionalista.
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(+) O estopim da Guerra Civil se deu em 23 de Maio de 32 quando, em confronto com as tropas federais, cinco estudantes paulistas morreram no combate (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo). O levante paulista ficou assim conhecido como MMDC, acrônimo dos pré-nomes desse quatro jovens.

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1933: UM JOGO, DOIS TÍTULOS


Em pé: Junqueira, Voldoni, Pintanela, Tunga e Cambon. Agachados: Avelino, Gabardo, Nascimento, Romeu Pelicciari, Carazzo e Imparato.
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1933 foi um marco para o futebol nacional, pois definiu oficialmente o início do profissionalismo no esporte pelas terras tupiniquins. E para ratificar nossa vocação pioneira, foi o Palestra Itália o primeiro campeão profissional de futebol, arrebatando o troféu paulista daquele ano, no dia 12 de novembro, contra o São Paulo da Floresta (na verdade, estávamos nos sagrando bi-campeões paulistas naquela tarde). Foi um jogo difícil e emocionante, conta a história, onde vencemos pelo clássico placar de 1 x 0, gol de Avelino (o primeiro que você vê agachado na foto).

O detalhe é que, para divulgar a novidade do profissionalismo no cálcio brasileiro, a CBD criou naquele ano o Torneio Rio-São Paulo, imaginando que isso despertaria ainda mais interesse nos dois estados onde o futebol era mais relevante, em termos de público e estrutura. Só que criaram um regulamento esdrúxulo, onde não havia confronto direto entre os campeões regionais: o vencedor do Rio-São Paulo seria aquele que apresentasse melhor campanha entre os dois campeões regionais.

Pois bem: como construímos em 33 uma campanha histórica no Paulista (só contra o Rivale metemos 5 x 1 em pleno Parque São Jorge e 8 x 0 no returno, dentro do Parque Antártica), nos tornamos detentores de dois títulos importantes ganhos numa mesma tarde – em mais um ato de pioneirismo na história do futebol brasileiro.

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(+) 1933: Nasce em Pau Grande, em 28/10, Manuel dos Santos Filho, o imortal Garrincha.

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Porque não é o time deles… Os donos de jornal desse estado estão aqui há 400 anos, entende? Sempre, quando o Palmeiras cresce, vem à tona aquele ranço contra o imigrante que veio trabalhar na lavoura deles e não se conformou em ser miserável; que juntou dinheiro, enriqueceu e desenvolveu essa cidade criando indústrias, revolucionando a arte, a política, os costumes e de quebra revelando a miopia do barão – que ainda via um mundo dividido entre quem manda e em quem obedece, o senhor de engenho e o escravo.

No futebol a coisa se agrava; tentaram tirar da mão do povo a diversão universal da bola; compraram e cercaram o velódromo só para eles, restando para todos os outros que amavam o calcio, as várzeas do rio Tietê; criaram um campeonato onde somente os clubes da elite paulistana podiam formar times e impediram, o quanto puderam, Palestra Itália e Corinthians de participarem. Quando o Corinthians conseguiu se inscrever, eles se retiraram da Liga,

ofendidos; quando o Palestra chegou, eles já controlavam a arbitragem e não nos deixavam ganhar as partidas, a ponto do time ítalo-brasileiro se ver obrigado a desistir do campeonato de 1917.

Mas, a medida que uma sociedade plural se formava, a bola saiu de vez do meio-campo daquela elitizinha; o resultado foi que o Paulistano fechou as portas para o futebol em 1930, não sem antes legar ao estado um verdadeiro aborto da natureza, um time nascido da mágoa e do rancor (como de um herdeiro que perdesse a rica herança), o abjeto e repulsivo São Paulo Futebol Clube, time nascido do nojo – e com nojo de tudo e todos.

Sem o dinheiro fácil com o qual se acostumara em tenra idade, o time do resquício não soube se administrar e foi à falência duas vezes, em 1935 e 1938, ano em que Palestra Itália e Corinthians cometeriam o maior erro de suas grandes histórias: organizaram uma partida beneficente, o famoso “jogo das barricas”, onde o presidente leonor passeou nas arquibancadas pedindo humildemente, com uma bandeira esticada nas mãos, uma esmola para seu time não fechar as portas.

Isso só fez crescer a mágoa e o despeito dessa gente; porque não obstante a tudo que fizeram, o Palestra já ostentava o clube mais rico e moderno, na região mais valorizada da cidade, com um estádio de primeira linha. Entende por que o Porco incomoda tanto?

Preste bem atenção nisso… historicamente, eles sempre ruminaram esse ódio: o mais moderno, o mais profissional, o pioneiro, o mais rico dos times de São Paulo sempre foi o Palestra Itália. Isso tudo que você vê e lê hoje na mídia não passa de uma tentativa, dessa gente que se sente inferior aos outros, de compensar o que consideram uma injustiça da História: por isso as palavras “diferenciado”, “moderno”, “rico”, “profissional”, saem tão fáceis da boca despeitada de quem, no fundo, só tem mesmo é inveja.

São palavras de quem nunca teve e jamais teria patrimônio algum, não fossem os anos de ferro da ditadura terem possibilitado, durante algumas décadas, a volta dessa corja mesquinha àquele modelo de poder contra o qual não se podia reagir. E quando voltaram, a primeira coisa que tentaram fazer foi tomar nosso estádio, mas tomaram um pé na bunda e saíram correndo: foram roubar o campo do Germânia e dinheiro do povo.

O Porco incomoda porque, novamente, está prestes a tirar da mão deles o tricampeonato que jamais conquistaram. Tentaram algumas vezes, quase chegaram, é verdade… Em 1947, no Paulista, estavam quase lá – mas o Porco aplicou-lhes um 4 x 3 e destruiu seu sonho. No ano santo de 1950, novamente frustraríamos esse intento; em 1972 fomos campeões invictos do Paulistão, deixando em segundo um também invicto São Paulo, que buscava outra vez o inédito tri.

Eles foram ainda bicampeões regionais em 1991/92, mas Evair, Edmundo e cia. destruiriam pela 4ª vez a ambição leonor de ostentar um tricampeonato. Sobraram os trinetos do barão, desesperados, antevendo nas redações que, pela 5ª vez na História, nós frustaremos seu intento. E dessa vez em um Nacional.

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SR. PROCURADOR DO STJD PAULO SCHIMITT,


Ao final de setembro de 1919, havia um time recém-nascido em São Paulo, criado pela colônia de imigrantes italianos aqui estabelecida antes da Primeira Grande Guerra, como o senhor bem sabe. Pessoa culta que é, com certeza também conhece a história dessa imigração, iniciada no final do século XIX como fruto de um acordo entre o governo da Itália recém-unificada, industrializada e miserável e um dos últimos países do Globo que se viu obrigado a substituir sua mão-de-obra escrava na produção agrícola.

Pelos lados paulistanos, sr. Procurador, é sempre bom lembrar que quem primeiro fomentou a idéia da mão-de-obra livre foi justamente o movimento burguês de um grupo de latifúndios cafeeiros do estado, cujos barões já previam, desde a Lei do Ventre Livre, o fim do período escravagista no Brasil. Imaginavam contar com braços baratos, vindos de uma Europa em colapso, fugidos da fome.

Só entre 1884 e 1913, aportaram no Brasil mais de 1.200.000 imigrantes oriundi d’Italia, segundo o IBGE, e eram eles a minha família – e a família de muita gente. Só que nossos ancestrais tinham um sonho diferente dos barões do café paulistanos: queriam trabalhar sim, mas não como os novos escravos da lavoura. Suas mãos eram talentosas, e já em seu país de origem eram artesãos que faziam tudo com esmero, dedicação e amor. Eles sabiam fazer fogos de artifício, queijos, vinhos, pães, roupas e sapatos com o capricho que ninguém mais possuia. Eles queriam fazer dinheiro, ter seu comércio, criar indústrias, fazer a América.

É inútil dissertar sobre a fortuna cultural com a qual a Itália nos enriqueceu ao longo do século XX. Especialmente nesta São Paulo dos barões: os prédios mais majestosos foram erguidos por arquitetos vindos da Bota; as pontes mais concretas uniam as pessoas no compasso do engenheiro oriundo. As comidas, as festas, os santos, os artistas; os alfaiates, os marcineiros, técnicos e agricultores…

Meu avô foi pespontador, sr. Procurador.

Só uma coisa entristecia meus ascendentes: às vezes, eles não eram tão queridos por aqui. Muitas vezes, quanto mais esforço faziam para mostrar que amavam esse país e se sentiam tão brasiliani quanto qualquer brasileiro, mais eram renegados por uma sociedade que não queria vê-los ocupando seu espaço.

Mas os meus não abaixaram a cabeça e nunca aceitaram ter donos; em poucos anos de Brasil se ergueram novamente, a custa de muito trabalho árduo e saudades das famílias, invariavelmente partidas entre dois continentes. E foram se transformando em uma nação longe de sua terra natal, como alguém que acordasse fora de seu próprio corpo depois de muito sofrer: foi aí, sr. Procurador, que minha gente começou a criar raízes nesta terra.

Por esses lados, a colônia idealizou um clube que pudesse representar os ítalo-brasileiros nos gramados de futebol, uma paixão que crescia a cada dia com a nação. Quase não deu certo, porque a Primeira Guerra consumiu quase todas as economias dos imigrantes, que enviavam além-mar o que tinham para que a Itália pudesse combater os alemães. Minha gente não abaixou a cabeça. Nosso clube insistiu em existir, feito seu povo nesse estado. Não foi aceito nos primeiros campeonatos; quando aceito, foi tão vergonhosamente prejudicado a cada jogo, que teve de se retirar de um Paulista onde não o queriam.

Mas, ao final de setembro de 1919, havia um time recém-nascido em São Paulo, sr. Procurador, chamado Palestra Itália. E seus heróis fundadores tiveram a singela idéia de pedir a cada um dos imigrantes da colônia que colaborassem na aquisição de um “bônus” que serviria para o clube poder comprar seu próprio estádio.

E, veja o senhor: em 27 de abril de 1920 o então presidente do clube, Menotti Falchi, já havia garantido o aporte de 500 contos de réis e lavrado em cartório a compra do Parque Antarctica.

Com o esforço de um povo, sr. Procurador. Com o dinheiro honesto da minha gente, com o orgulho de quem conquista o mundo quando persiste, sem a ajuda de nenhuma esfera de poder vigente: nós construímos o mais belo e moderno estádio de sua época – e ainda temos o clube esportivo mais cobiçado da capital.

Meu avô costurava os sapatos de couro na sola, último passo antes dos calçados chegarem às lojas. Trabalho sutil e paciente feito à mão: isso era ser um pespontador no seu tempo. Lavoro humilde que garantiu a criação de três filhos e permitiu-lhe segurar nos braços treze netos.

Quando um palmeirense entra naquele estádio, portanto, está entrando na própria história. Quando aquela torcida grita um gol do Palmeiras, sr. Procurador – e isso lhe escapa à compreensão – ela sente o abraço e ouve o eco de um milhão dos seus, e se reconhece. Cada gol comemorado reforça nossa identidade e não nos deixa esquecer de quem nos trouxe até aqui.

Porque nossa história nos enche de orgulho e afoga em lágrimas nossos olhos. Um ídolo da nossa equipe, quando é de ferro, não é um ícone qualquer que outros times ostentam para as câmeras. Um ídolo verdadeiro, no Palestra Itália, é um ser que representa nossa fibra, nossa persistência, nosso sonho em ser livre. E nós o amamos por isso.

Portanto, quando zomba da nossa casa e do nosso maior ídolo, o senhor está ofendendo milhares de pessoas que conhecem a própria história, agride suas famílias e seus antepassados. E nos ofende gravemente, sr. Procurador, se sua piada se remete a um mau-cheiro, porque isso nos lembra o nojo de certa gente que se acostumou, lá trás, a ver nosso povo como um bando de porcos maltrapilhos que não mereciam a honra de estar aqui. É muito, muito grave o que o senhor fez. Instiga a revolta de gente que não pára para pensar e escrever, como faço agora. Estimula a violência da qual a mídia tanto nos acusa de incitar nos estádios. É irresponsável sua piadinha, sr. Procurador.

E espero sinceramente seu pedido de desculpas para esse povo que não lhe fez nada de mal.

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A ilustração criada para esse post é uma homenagem ao nosso Santo Imortal, que fez a partida que fez contra o Vasco ontem e que foi apedrejado duas vezes na mesma semana. A primeira pela imprensa, que decidiu eleger por votação seu reserva na Copa como melhor goleiro que ele, e a segunda pelo fato ocorrido que lamentamos acima.

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